segunda-feira, 4 de Fevereiro de 2008

Voa, Voa Joaninha



Joaninha pelo ar,
és bolinha a voar,
poisa aqui nesta flor,
para eu ver a tua cor.

És vermelha e pretinha,
mas que linda, ó joaninha,
fica aqui na minha mão,
junto do meu coração.

Afinal já vais partir,
espera aí, eu quero ir,
joaninha vou contigo,
tu precisas de um amigo.


Cancioneiro Infantil (recolha de Rita Ana Domingos)

terça-feira, 15 de Janeiro de 2008

O quarto da bruxa malvada

O quarto estava fechado. Ninguém podia entrar. A chave estava com a criada velha. Andava sempre com ela. Até quando ia dormir. Era escusado pedir. Ela resmungava e dizia que não. Que aquela porta não podia ser aberta. A mãe e o pai também nunca lá entravam. mas de nada valia perguntar porquê. As respostas eram sempre esquivas. Ou então definitivas. Isso não são assuntos para crianças. Não se pode entrar e ponto final. Vive lá uma bruxa malvada. Perdemos a chave e agora ninguém pode abrir aquela porta. Mas bem sabíamos que a criada velha lá entrava todas as noites. Às escondidas. Quando pensava que as crianças já dormiam. Mas nós ouvíamos os passos da velha no corredor. E a porta do quarto a ranger. Talvez a bruxa malvada fosse ela. Um dia perguntei-lhe o que é que ela ia fazer todas as noites ao quarto fechado. Ela sorriu. Disse que naquela noite me levaria com ela. Mas que eu não podia dizer nada a ninguém. Nem ao pai, nem à mãe, nem ao mano, nem à mana. Que fosse ter com ela à cozinha, quando todos estivessem a dormir e ela levar-me-ia ao quarto da bruxa malvada. Eu bem tentei. Juro que tentei ficar acordado até não ouvir um único ruído na casa. Mas o sono foi mais forte do que eu. Quando acordei a casa tinha mudado. A criada velha já lá não estava. E a porta do quarto tinha desaparecido. Só havia parede. Mais nada. Perguntei à minha mãe e ela disse que nunca tinha havido ali nenhum quarto nem nenhuma porta e que bom seria ter dinheiro para uma criada, mesmo que fosse velha. Calei-me. Nunca mais falei do quarto a ninguém. Nem ao pai, nem à mãe, nem ao mano, nem à mana, nem à criada velha, nem à bruxa malvada.

terça-feira, 16 de Outubro de 2007

O mundo das crianças visto por um adulto (ou memórias de quando o adulto era criança)

quarta-feira, 1 de Agosto de 2007

Para a Alba

Quando eu era pequenina, no tempo em que as bonecas tinham apenas um vestido, aprendi a roubar os lenços de assoar da gaveta da minha avó para fazer majestosos fatos de princesa, cortinados para as janelas das casas de bonecas que improvisava, lençóis para as camas dos bebés e tudo o mais o que a imaginação deixasse. Quando acordava da sesta, a minha avó, zangada, dava-me sempre uma pequena, muito pequena, reprimenda e lembrava-me o trabalho que tinha tido a lavar e a passar os seus lenços. Nesses tempos, não existiam ainda lenços de papel. Cá em casa, hoje, não existem lenços de pano, excepto um, cor-de-rosa, que guardo na minha gaveta das cuecas e que julgo ter-lhe pertencido.

A minha filha M., menina da geração das barbies, nenucos e outros rivais, tem um caixa cheia de roupa de bonecas, bebés e outros adereços diversos. Estranhamente, ou não, prefere que eu lhe dê pequenos pedaços de tecido e de cartão para com eles fazer as suas cortinas, os seus móveis e todos os objectos necessários a uma casa de bonecas.

Que tempo é o tempo mental de uma criança? Lembro-me de algumas tardes de Verão e das brincadeiras deliciosas que tínhamos, eu e a minha irmã, tardes longas, quase eternas, como o próprio Verão o é no tempo de se ser criança. Será que também assim o é com a M.?

Recordo também o sabor doce, único, dos pudins da minha avó ou dos gelados de gelo que aprendemos a fazer com os refrescos Dawa.

A infância é um tempo mágico, onde tudo é ou muito bom ou muito mau, como as dores de barriga da minha irmã no primeiro dia de escola ou as saudades enormes que tinha da minha mãe.

Não obstante, são as cócegas, os risos, o olfacto e o tacto apurados, ou a ausência deles, que nos indicam se estamos ainda na infância.

Temo ter-me afastado há já muito da infância. Sorrio por a poder recuperar também aqui.

quinta-feira, 28 de Junho de 2007

O sonho secreto

A minha avó não tocava piano nem falava francês. Trauteava músicas populares e mal escrevia na sua língua materna. Dava muitos erros. Escrevia de ouvido. Pouco lia. Os livros que eu lia faziam-lhe confusão. Dizia que de tanto ler ia acabar maluquinho. Talvez não se tenha enganado. Por vezes perguntava-me se eu já tinha lido a Bíblia. E, nessas alturas, o facto de eu ler já não parecia ser tão negativo. Esperava o fim do mundo. E os sinais que via pareciam indicar que ele estaria próximo. Queria saber se ele já tinha sido anunciado e para quando. Receava confiar demais nas suas intuições, e precisava de as confirmar em fontes mais autorizadas. E já que o neto vasculhava livros, tinha esperança de poder recorrer à mais importante de todas elas. A própria palavra de Deus. Tinha ouvido dizer que o mundo acabaria em fogo. Como o Inferno começa para nunca mais acabar. Por isso os incêndios assustavam-na muito. Se houvesse suspeitas de fogo posto mais assustada ficava. Essa gente, que isso fazia, era emissária de Satanás. Anunciavam o fim dos tempos. Temia muito o ano dois mil. Morreu antes de ele ter chegado. Por isso não chegou a saber que o mundo não acabou nessa altura. Talvez saiba agora, que Deus a condenou a uma qualquer eternidade, que não há princípio nem fim, e que estamos sempre no meio, algures entre o que não começou nem pode acabar. Hoje talvez a minha avó fosse ecologista e lutasse contra o fim do planeta. Ou talvez achasse que essa era uma luta vã. Porque não se podia ir contra o que estava escrito. Acho que foi por isso que me tornei mais verde. Para alimentar o sonho secreto da minha avó. O de que o mundo não acabasse.

quarta-feira, 6 de Junho de 2007

Improvisos nocturnos

Eram do arco-da-velha as histórias que a minha mãe me contava, embora arco-da-velha fosse um termo usado pela minha avó, mãe da minha mãe, que a do meu pai não cheguei a conhecer, só por fotografia, uma já velha e gasta pelo tempo, onde estava ela e o marido, e que o meu pai, pouco dado a guardar memórias, guardou como se fosse uma relíquia. A minha mãe contava as histórias de cor. Repetia-as muitas vezes, porque eu as pedia vezes sem conta. Mas de cada vez elas tinham um sabor diferente. Ela improvisava, preenchia vazios, alterava-lhes o colorido. Eram como um arco-íris, um arco da velha, como lhe chamava a minha avó. Por vezes eu corrigia-a. Quando dava por um pormenor que faltava ou por uma novidade que ela acrescentava. Outras vezes deixava-me enganar. E ouvia aquelas histórias sempre novas como se as conhecesse de fio a pavio. O arco-íris parece sempre igual e é sempre diferente. Mas o segredo é sempre o mesmo. Mistérios da chuva que a luz do sol desvenda. Mãe, conta-me aquela do lenhador que perdeu a filha na floresta. E a minha mãe contava. E eu sabia que por mais perigos que a menina corresse, e nunca eram sempre os mesmos, tudo acabaria bem. A luz do sol dissiparia a tempestade e, no exacto momento em que as cores sempre novas do arco-da-velha riscassem o céu da floresta, eu adormeceria, embalado pelas palavras das histórias que a minha mãe improvisava.

domingo, 6 de Maio de 2007

Anjos

O homem vinha alheado de tudo e por isso não viu nem ouviu o menino que se deteve à sua beira. Maldito dia, pensava, maldito dia e maldito calor! Uma vez mais tirou o lenço de dentro do casaco e limpou os pingos de suor que teimavam em escorrer pela testa. O menino continuava a olhá-lo como que à espera de uma resposta. No enfado tornado pressa do dia, o homem baralhou as mãos e deixou cair no chão uma pasta cheia de papéis. Na rua cruzavam dezenas de pessoas, também elas alheias ao homem, ao menino, aos papéis e ao cheiro a farturas da carripana estacionada logo ali ao lado. Porra, não me faltava mais nada, vociferou o homem entre dentes, baixando-se de sopetão para apanhar os papéis. Só então reparou numas maozitas pequenas e sujas que lhe ofereciam parte dos seus papéis. Meio apalermado, o homem levantou a cabeça e deu de caras com uns enormes olhos castanhos que o olhavam fixamente. Olá, quis dizer, mas já o menino falava. Por acaso não és o meu pai? Julgando não ter percebido, o homem perguntou: desculpa? Perguntei-te se não eras o meu pai, disse o menino. Atónito ante a pergunta, o homem pareceu de súbito despertar e disse-lhe: olha, ajudas-me a apanhar o resto dos papéis e depois vamos comer uma fartura para me contares a história do teu pai. O menino sorriu, assentindo. Uma brisa começou a correr e o ar pareceu mais leve e doce, assim como longo o tempo, naquela tarde de Verão.

domingo, 15 de Abril de 2007

...

Tim Burton

Coco

Anda duermete niño
(Tradicional Miranda/Vimioso/Mogadouro)

Anda duermete niño
Que viene el coco
A comere los ninõs
Que duermen poco
Anda duermete niño
Duerme sin miedo
Aunque silben los aires
Gruñan los perros

Anda durmete niño
La la nana
Duerme duerme lucerito
De la mañana
En la puerta del cielo
Venden zapatos
Para los angelitos
Que estan descalzos.

quarta-feira, 11 de Abril de 2007

Fantasmas e monstros

Durante muito tempo deitei-me cedo. Ainda a luz não se apagara e já eu temia os fantasmas e os monstros que se escondiam debaixo da cama. Depois a minha mãe vinha apagar a luz. Mas ainda não dormia. E a escuridão alimentava os meus medos. Tapava-me todo para me proteger. A custo adormecia. Para os ver. Eles vinham lentamente de debaixo da cama. Queriam me alcançar. Não sei para quê. Acordava aterrorizado. Gritava pela minha mãe. Ela vinha. Acendia a luz e tentava acalmar-me. Sorria. Procurava debaixo da cama. Assegurava-me que já lá não estava nada. Beijava-me levemente a testa. Ajeitava-me a roupa da cama. E eu adormecia. Inseguro, mas pacificado.

O tesouro

A minha avó não sabia o caminho. A minha avó esperava pelo fim do mundo. Vinha escrito na Bíblia. Mas ela não lia. Tinha medo. E não sabia ler por aí além. Fazia a lista das compras com muitos erros. Lia revistas leves com dificuldade. Dizia que eu um dia ainda ficava maluquinho se lesse demais. E cuidado com o que se lia. A minha avó um dia perguntou-me se eu tinha lido a Bíblia. Queria informações sobre o fim do mundo. Não que não tivesse ainda as suficientes. Bastava ver o telejornal. Era assim que ia acabar. Com desgraças e mais desgraças pelo mundo fora. E a nós só nos restava rezar. Para não sofrer muito. Para alcançar a clemência divina. A minha avó tinha medo do inferno. Era uma coisa que podia vir depois da morte. Nunca era seguro que não viesse. Mas em princípio é uma coisa que acontece mais aos outros. Os maus. Nós tentamos ser bons. Para ganhar o céu. Mas Deus tudo vê. E tudo sabe. E nada dele se pode esconder. E ninguém é perfeito. Não há ninguém sem pecado. E por isso nunca se sabe. Só Deus é que sabe. Foi a minha avó que me ensinou que o arco-íris era o arco-da-velha. Tinha muitas cores a riscar o céu. E parece que no fim do arco havia um tesouro. Só que não se sabia qual dos lados era o princípio e qual dos lados era o fim. Se calhar tinha que se procurar dos dois lados. Ou talvez o tesouro não existisse e fosse só uma suave promessa para tornar o arco ainda mais belo, e luminoso, e colorido.